“O escritor vive para sempre por causa de seus livros. A literatura é um protesto contra a morte” – Ariano Suassuna
Eis então que o sujeito segura uma pena, pega algum nanquim e começa a organizar um montante de palavras numa folha de papel qualquer. Tornou-se imortal. Kafkas, Dostoievskis e Clarisses podem inexistir fisicamente, até seus ossos podem ter desaparecido pela fome insaciável da natureza por transferência e reciclagem, mas as suas belas Letras estão lá, prontinhas para serem contempladas – e suas literaturas são eles mesmos. Quase quatro mil anos que Homero está vivo. Wirginia Wolf se suicidou, mas seu Orlando e seus textos prosseguiram. A literatura protesta contra a morte, a literatura sobrepuja a morte.
Infeliz da pessoa que ignora a paixão por um bom livro. A literatura propicia vida ao escritor e proporciona vida a quem lê. Thoreau se questionou em algum lugar quantos foram os que tiveram suas existências mudadas e mudaram o mundo após ler um livro. Com certeza muitos. Gandhi compreendeu o que pretendia após ler o próprio Thoreau (A Desobediência Civil, especificamente) numa cela em Joanesburgo, na África do Sul. Partiu para livrar a sua Índia do jugo colonial inglês – e livrou. Na distopia Fahrenheit 451, Ray Bradbury concebe um mundo futurista em que os bombeiros são especialmente treinados para queimar livros, onde forem encontrados (451 graus fahrenheit é a temperatura necessária para que o papel entre em combustão), pois a literatura pode abalar e derrubar a ordem social ditatorial imposta. Não há livros, não há literatura, as pessoas são fúteis, subservientes, sem memória.
Infeliz da pessoa que não é arrebatada por uma boa leitura. Arrebatamentos dão dinâmica plena à vida, transforma-nos, impele-nos para frente, nos possibilita transcendência, elucida-nos de nossas dúvidas e anseios. Quem desconhece tais experiências vive uma vida manca.
Tomando emprestado palavras de Thoreau, grafadas em seu Walden, or life in the woods: “sempre que nos preocupamos em acumular riquezas para nós mesmos ou para nossa posteridade, em constituir uma família ou um Estado, ou mesmo adquirir fama, tornamo-nos mortais. Todavia, quando procuramos a substância da verdade tornamo-nos imortais e não precisamos temer mudanças ou acidentes. Se os mais antigos filósofos egípcios ou hindus levantaram a extremidade do véu que cobria a estátua da divindade, cujo manto trêmulo permanece soerguido, permitindo-me mirá-la em sua glória tão bem quanto eles, permitem-me dizer que eu fui tão ousado quanto eles, e eles conjuntamente comigo podem agora rememorar a visão”.
Por fim, escreveu o poeta muçulmano Mîr Camar Uddîn Mast, citado por Thoreau: “ansiando por percorrer as regiões do mundo espiritual, obtive nos livros esta orientação. Embriagar-me com uma única taça de vinho: consegui esta proeza ao beber o licor das doutrinas esotéricas”. Bebamos este vinho nós também, embriaguemo-nos e sejamos eternos.